Leonardo Reis Almeida
Leonardo Reis Almeida
Sistema Cabruca e Governança Ambiental

Cabruca: produzir sob a floresta, com as limitações reais disso

Trabalho com cacau cultivado sob dossel de Mata Atlântica. O sistema tem méritos ambientais concretos e restrições produtivas que raramente aparecem no discurso.

Atuo na frente ambiental da operação de cacau da família, em Ilhéus, e coordeno a Academia do Cacau Sustentável, programa de formação técnica para pequenos produtores da região.

Escrevo aqui sobre o sistema Cabruca do ponto de vista de quem depende dele economicamente. Existe bastante material celebrando a Cabruca como solução ambiental e pouco material honesto sobre onde ela custa caro. As duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo, e produtor que adota o sistema sem saber da segunda parte se frustra.

O que a Cabruca de fato conserva

Cabruca é o cultivo de cacau sob o dossel remanescente da Mata Atlântica, com raleamento do sub-bosque e manutenção das árvores de grande porte. O que resulta não é floresta intacta — é floresta manejada, com estrutura simplificada.

Essa distinção importa e costuma ser apagada. A Cabruca conserva cobertura arbórea, corredor para fauna, nascente e carbono em biomassa acima do solo. Não conserva a composição original de espécies do sub-bosque, que é justamente onde vive parte relevante da biodiversidade.

Comparada a pasto ou monocultura a pleno sol, a Cabruca é ambientalmente superior por larga margem. Comparada a floresta primária, é inferior. Ambas as comparações são legítimas, e escolher só a primeira para comunicar é o tipo de meia-verdade que mina a credibilidade do sistema quando alguém confere.

Prefiro a formulação mais defensável: a Cabruca é o melhor uso produtivo conhecido para uma área que, na prática, seria convertida em outra coisa.

O custo produtivo da sombra

Cacau sob sombra produz menos por hectare que cacau a pleno sol. Isso não é opinião, é limitação fisiológica: menos radiação disponível significa menos fotossíntese e menos frutos.

O sistema se sustenta economicamente por outra via — qualidade e diferencial de preço, não volume. Cacau de Cabruca bem conduzido acessa mercados de chocolate fino que pagam múltiplos do preço de commodity. Quando esse acesso existe, a conta fecha com folga. Quando não existe, o produtor tem os custos da conservação e o preço de commodity, o que é insustentável.

É por isso que recomendar Cabruca indiscriminadamente é irresponsável. Para o produtor que não tem canal de venda diferenciado, o sistema pode significar renda menor sem contrapartida. O gargalo real da expansão da Cabruca não é técnico nem de convencimento ambiental — é de acesso a mercado.

Boa parte do trabalho da Academia acabou migrando nessa direção: menos ensinar a conservar e mais ensinar a alcançar quem paga pela conservação.

Sobre créditos de carbono

Sistemas agroflorestais estocam carbono e há interesse crescente em monetizar isso. Vale registrar as dificuldades práticas, porque o entusiasmo tem corrido à frente da execução.

A primeira é adicionalidade: crédito remunera carbono que não seria estocado sem o projeto. Uma Cabruca centenária já estocava carbono antes de qualquer projeto existir — o que é excelente ambientalmente e ruim para a tese de crédito. Paradoxalmente, quem conservou por gerações tem mais dificuldade de habilitar crédito do que quem degradou e agora restaura.

A segunda é custo de verificação, que tem forte componente fixo. Para propriedade pequena, o custo de medir e auditar consome parte grande da receita esperada, o que empurra o mecanismo para grandes áreas ou exige agregação de produtores — que é organizacionalmente difícil.

Não estou dizendo que não funciona. Estou dizendo que, para o pequeno produtor de Cabruca do sul da Bahia, crédito de carbono ainda é promessa mais do que renda, e apresentá-lo como solução iminente gera expectativa que não se cumpre.

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